Carne imortal

Eu tenho horror da morte.
Mas às vezes, quando penso
que sob a terra hei-de tornar-me
alimento de raízes,
seiva que subirá por caules frescos,
grande árvore que centuplique talvez
a minha pequena estatura,
digo: – Meu corpo:
és imortal.
E toco com prazer
coxas e seios,
o cabelo e as costas,
pensando: Acaso apalpo
os ramos de um cedro,
as palhas de um ninho,
a terra de um sulco
tépido como carne feminina?
E extasiada murmuro:
– Corpo meu: és feito
de substância imortal!

Juana de Ibarbourou, Uruguay, (1892 – 1979), tradução de Soledade Santos

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Vim de comboio

Vim de comboio
admirei a paisagem
em redor da tua cidade
e digo-te:
há um ar cinzento de cataclismo
atmosfera de desastre
plenilúnio de catástrofe
Anda
pela tua cidade
uma vigésima criança que mendiga
e óleos de musgo pendem
dos velhos edifícios

uma incerteza
vergôntea tragédia

um cheiro a rancor e a mortos
que me asfixia
ou será este silêncio das dez da noite pelas ruas

a cidade sem automóveis
a cidade com medo
e mil e um refugiados que se escondem nos bosques
dos teus perímetros balneários
e quinze mil presos políticos gemem em pocilgas

uma luta subterrânea
um medo opaco
uma relva seca
uma impressão de ressentimento
e um silêncio de agouro
negro pássaro de morte
que anuncia por todos os lados
a vinda de outros tempos.

Cristina Peri Ross, Uruguai (n. 1941), tradução de Soledade Santos

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Depois

E agora começa
a pequena vida
do sobrevivente da catástrofe do amor:

Olá, pequenos cães,
olá, vagabundos,
olá, autocarros e transeuntes.

Sou uma criança de peito
acabo de nascer
do terrível parto do amor.

Já não amo.

Agora posso actuar no mundo
inscrever-me nele
sou mais uma peça da engrenagem.

Cristina Peri Ross, Uruguai, (n. 1941), tradução de Soledade Santos

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