Garças

jac

As garças procuram dias claros
para voar nos binóculos
que as observam. Sobrevoam
a baixa altura o bosque
e planam ao longo das margens,​
perto dos juncos, passe-partout entre moldura
e desenho.

Submergem até meio
das pernas e o bico inteiro
nas águas, avançam
devagar, traçam círculos
perfeitos à superfície
e provocam um leve chapinhar
que só os silêncios do rio
escutam quando o leito
confunde o que flui

com o que permanece.
E em tamanha quietude
imprimem no ar ameno
o ronco destemperado
do seu grasnido. Nada se compreende
então. Assim actua
a realidade.

José Ángel Cilleruelo, Barcelona (n. 1960), tradução de Soledade Santos (primeiro publicada no Poesia, vim buscar-te

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