Não me parece nem bem nem mal

Acredito que às vezes nos contemplam
pela frente por trás pelos lados
uns olhos rancorosos de galinha
mais terríveis que a água podre das grutas
incestuosos como os olhos da mãe
que morreu no patíbulo
pegajosos como um coito
como a gelatina que os abutres devoram
acredito que hei-de morrer
com as mãos afundadas no lodo dos caminhos
acredito que se me nascesse um filho
ele quedar-se-ia a olhar eternamente
as bestas que copulam ao entardecer.

Luís Buñuel, Espanha, 1900-1983, traduzido por Nuno Dempster.

 

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Parábola do Indestrutível

Onde está agora o ramo dourado
que levei para o corpo dela?
Onde está o sabor a água doce
dividido nas nossas bocas? E porque é que
as aves canoras nunca mergulham
na água ou caçam a partir da montanha?
Escuta: o balido do pato selvagem,
o queixume do mergulhão e o crocitar da garça,
os falcões que uivam como lobos e as águias-marinhas
que relincham como cavalos, a tagarelice das gaivotas,
e a pequena coruja a latir na luz do dia:
como ossos na garganta as suas próprias
questões indestrutíveis.

Robert Bringhurst, EUA, 1946,  tradução de Nuno Dempster.

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Natal de ’44

Desde miúdo alegrava-se-me a face
quando chegava a festa do Natal.
Toda a noite trabalhava a peneira
e de manhã davam-me o fato bonito.

Então escapava-me de casa a correr
e andava na praça a mostrar-me;
e ao meio-dia em ponto na mesa enfeitada
comíamos todos em santa paz.

Oh, o meu Natal, o cheiro dos doces,
hoje passei-o às voltas numa estrada,
sem um pedaço de pão, a roupa emprestada,
longe de casa e sem amor de ninguém.

Tonino Guerra, Itália, 1920 – 2012, traduzido por Nuno Dempster.

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Os Bois

Vão dizer aos bois para se irem embora,
que aquilo que está feito está feito,
que isso agora se faz com o tractor.

A todos chora o coração, a mim também,
vendo que trabalharam milhares de anos
e agora partem de cabeça baixa,
atrás da longa corda do matadouro.

Tonino Guerra, Itália, 1920 – 2012, traduzido por Nuno Dempster.

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A si dou uma flor

A si dou uma flor,
se me permite,
um gato e um microfone,
uma chave de fendas totalmente sem uso,
uma janela alegre.
Agite tudo.
Faça um poema
ou qualquer outra coisa.
Leia-a ao vizinho.
Deite-a feliz para a sargeta.
E bom-dia,
não volte nunca mais, saúde
quantos ainda recordem
que vamos apodrecendo de impotência.

José Ángel Valente, Espanha (n. 1929), Tradução de Nuno Dempster

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Poema dito no final do filme Pasolini – Um Delito Italiano

Aqui o filme, integral e legendado.

A inteligência nunca terá importância, nunca
na consciência desta opinião pública. Nem mesmo
sobre sangue dos campos de concentração, obterás

de um dos milhões de almas do nosso país
um juízo limpo, totalmente indignado:
toda a ideia é irreal, irreal toda a paixão,

deste povo já dissociado
dos séculos, cuja suave sageza
lhe serve para viver e nunca o libertou.

Mostrar o meu rosto, a minha magreza,
levantar a minha voz sozinha e pueril
não tem mais sentido: a cobardia habitua-se

a ver morrer os outros do modo mais atroz,
com a mais estranha indiferença.
Eu morro, e também isso me ofende.

Pier Paolo Pasolini, Itália (1922-1975), tradução de Nuno Dempster.

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Manhã

Abriu as venezianas. Pendurou os lençóis no peitoril.
                              Mirou o dia.
Um pássaro fixou-a nos olhos. “Estou só”, murmurou.
“Estou viva.”Entrou no quarto. O espelho é também uma janela.
Se saltar dele, cairei nos meus próprios braços.

Yannis Ritsos, Grécia (1909-1990), tradução de Nuno Dempster.

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O género humano

Nem juntos os nossos corações soam mais,
na inquietude total do universo,
do que esse frigorífico que ouvimos latir à noite
numa solidão cordial e insone.

Nem sequer a união
de todos os trabalhos que suportamos
conseguia mudar a forma de uma nuvem.

A soma do amor de todos juntos
não podia salvar
a vida de um insecto agonizante
nem conter a soberba de um tirano.

A nossa história é um cofre
de sangue e cinza.
O mar apaga a esteira dos navios.

O tempo varrerá as nossas pegadas.

Felipe Benítez Reyes, Espanha (n.1960), tradução de Nuno Dempster.

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A idade de ouro

Aquilo que o tempo leve
que seja tanto
quanto o tempo nos deu,
prenda não merecida,
abandonando a memória na inocência
da vida já cumprida, porque nada
fere mais e mais fundo que a lembrança:
enquanto subsista uma noite na memória,
essa noite é a Noite
e essa intensa memória a Memória.

O tempo leve tudo
o que queira levar,
porque tudo foi seu desde sempre.

Que o tempo desvaneça
o ouro delinquente do amor
e a imagem hermética daquilo
que chamavas passado
                             ― e era apenas
ontem: a fugitiva
idade de não ter
idade para o passado.

Idade de Baudelaire e de miúdas
que adquiriam noções da vida
nas últimas filas dos cinemas
e nesses velhos cinemas do pós-guerra
convertidos
em lugares de dança que fechavam
quando o céu queria amanhecer.
Amanheceres de domingo,
voltando a casa com
um copo ainda na mão
e tabaco esquisito no bolso,
a essa hora em que abriam os cafés
e as damas de caridade montavam mesas
com cartazes de meninos moribundos.

E era a morta luz que amanhecia
a metáfora gelada e a ilusão exacta de estar queimando
os templos da eterna juventude.

Mas no seu carro fúnebre
o tempo ia admitindo passageiros.

E as naves queimadas são cinza
e muito pouco de eterno
teve a juventude.

Assim que arraste tudo, o tempo
que leve no seu vórtice a memória,
                                                       deixando
um vazio perfeito no passado.

Porque toda a recordação
acaba corrompendo-se no presente
e este presente já
de pouco vai servir-nos.

De pouco vai servir-nos
o saber que houve um tempo em que a vida
valia o peso em ouro.

Porque a vida coloca
a casa no passado.

E esta casa sombria não parece a nossa.

Felipe Benítez Reyes, Espanha (n.1960), tradução de Nuno Dempster.

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O Mar

O facto de arrojar ao mesmo tempo
as cinzas ao mar de todos os cadáveres
que vagam pelas brumas da História;
mesmo toda essa cinza
unânime, afirmo eu, em nada alteraria
o contínuo fluir:

lentas marés,
a alada ondulação agreste
ou as lendas graves da sua ira.

Errabundo e cativo, porém sempre
com uma disciplina
perfeita: enigmática e calculada,

ouve como ele ruge:

o mar narcotizado pelas luas,
homérico, mutável e mecânico,
com mesnadas de peixes
de olhos aterrados que o exploram
como os meditativos peixes coloridos
exploram uma vez e outra vez e uma vez mais
o aquário cheio de palmeiras
e baús de pirata em miniatura.

Flutuante do mesmo modo
que o nosso pensamento,
olha-o,
angustiado de azul indefinível,
asmático, grandioso e teatral,
ele,
que foge e invade
segundo um estranho método que tem
algo a ver quiçá com os nossos ciclos
de razão e loucura, as duas faces
de uma mesma moeda que cai sempre de esquina.

Refúgio de seres silenciosos,
inesgotável mar de vaivém branco,
tão dado a todo o tipo de metáforas
que costumam lembrar-nos certas vezes
o muito que nós somos como o mar.

Felipe Benítez Reyes, Espanha (n.1960), tradução de Nuno Dempster.

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