Estavas a meu lado…

josé a v
Xulio Formoso, José Angel Valente em Paris

Estavas a meu lado
e mais próxima de mim que os meus sentidos.

Falavas do íntimo do amor
armada com a sua luz.
Nunca palavras
de amor mais puras respirara.

Estava a tua cabeça suavemente
inclinada para mim.
O teu longo cabelo.
e a tua alegre cintura.
Falavas do centro do amor
armada com a sua luz,
numa tarde cinza de qualquer dia.

Memória da tua voz e do teu corpo
a minha juventude e as minhas palavras sejam
e esta imagem de ti me sobreviva.

José Angel Valente, Espanha (1929-2000), tradução de Nuno Dempster.

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Pato de Inverno

Em cima da água gelada
o patito escorregava.

Em cima da água dura,
o patito da laguna.

Em cima da água fria
o patito silva que silva.

Silva que silva escorregava
e em vez de chorar silvava.

José Angel Valente, Espanha, 1929-2000, traduzido por Nuno Dempster.

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Não me parece nem bem nem mal

Acredito que às vezes nos contemplam
pela frente por trás pelos lados
uns olhos rancorosos de galinha
mais terríveis que a água podre das grutas
incestuosos como os olhos da mãe
que morreu no patíbulo
pegajosos como um coito
como a gelatina que os abutres devoram
acredito que hei-de morrer
com as mãos afundadas no lodo dos caminhos
acredito que se me nascesse um filho
ele quedar-se-ia a olhar eternamente
as bestas que copulam ao entardecer.

Luís Buñuel, Espanha, 1900-1983, traduzido por Nuno Dempster.

 

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Parábola do Indestrutível

Onde está agora o ramo dourado
que levei para o corpo dela?
Onde está o sabor a água doce
dividido nas nossas bocas? E porque é que
as aves canoras nunca mergulham
na água ou caçam a partir da montanha?
Escuta: o balido do pato selvagem,
o queixume do mergulhão e o crocitar da garça,
os falcões que uivam como lobos e as águias-marinhas
que relincham como cavalos, a tagarelice das gaivotas,
e a pequena coruja a latir na luz do dia:
como ossos na garganta as suas próprias
questões indestrutíveis.

Robert Bringhurst, EUA, 1946,  tradução de Nuno Dempster.

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Natal de ’44

Desde miúdo alegrava-se-me a face
quando chegava a festa do Natal.
Toda a noite trabalhava a peneira
e de manhã davam-me o fato bonito.

Então escapava-me de casa a correr
e andava na praça a mostrar-me;
e ao meio-dia em ponto na mesa enfeitada
comíamos todos em santa paz.

Oh, o meu Natal, o cheiro dos doces,
hoje passei-o às voltas numa estrada,
sem um pedaço de pão, a roupa emprestada,
longe de casa e sem amor de ninguém.

Tonino Guerra, Itália, 1920 – 2012, traduzido por Nuno Dempster.

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Os Bois

Vão dizer aos bois para se irem embora,
que aquilo que está feito está feito,
que isso agora se faz com o tractor.

A todos chora o coração, a mim também,
vendo que trabalharam milhares de anos
e agora partem de cabeça baixa,
atrás da longa corda do matadouro.

Tonino Guerra, Itália, 1920 – 2012, traduzido por Nuno Dempster.

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A si dou uma flor

A si dou uma flor,
se me permite,
um gato e um microfone,
uma chave de fendas totalmente sem uso,
uma janela alegre.
Agite tudo.
Faça um poema
ou qualquer outra coisa.
Leia-a ao vizinho.
Deite-a feliz para a sargeta.
E bom-dia,
não volte nunca mais, saúde
quantos ainda recordem
que vamos apodrecendo de impotência.

José Ángel Valente, Espanha (n. 1929), Tradução de Nuno Dempster

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Poema dito no final do filme Pasolini – Um Delito Italiano

Aqui o filme, integral e legendado.

A inteligência nunca terá importância, nunca
na consciência desta opinião pública. Nem mesmo
sobre sangue dos campos de concentração, obterás

de um dos milhões de almas do nosso país
um juízo limpo, totalmente indignado:
toda a ideia é irreal, irreal toda a paixão,

deste povo já dissociado
dos séculos, cuja suave sageza
lhe serve para viver e nunca o libertou.

Mostrar o meu rosto, a minha magreza,
levantar a minha voz sozinha e pueril
não tem mais sentido: a cobardia habitua-se

a ver morrer os outros do modo mais atroz,
com a mais estranha indiferença.
Eu morro, e também isso me ofende.

Pier Paolo Pasolini, Itália (1922-1975), tradução de Nuno Dempster.

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Manhã

Abriu as venezianas. Pendurou os lençóis no peitoril.
                              Mirou o dia.
Um pássaro fixou-a nos olhos. “Estou só”, murmurou.
“Estou viva.”Entrou no quarto. O espelho é também uma janela.
Se saltar dele, cairei nos meus próprios braços.

Yannis Ritsos, Grécia (1909-1990), tradução de Nuno Dempster.

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O género humano

Nem juntos os nossos corações soam mais,
na inquietude total do universo,
do que esse frigorífico que ouvimos latir à noite
numa solidão cordial e insone.

Nem sequer a união
de todos os trabalhos que suportamos
conseguia mudar a forma de uma nuvem.

A soma do amor de todos juntos
não podia salvar
a vida de um insecto agonizante
nem conter a soberba de um tirano.

A nossa história é um cofre
de sangue e cinza.
O mar apaga a esteira dos navios.

O tempo varrerá as nossas pegadas.

Felipe Benítez Reyes, Espanha (n.1960), tradução de Nuno Dempster.

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