Poema dito no final do filme Pasolini – Um Delito Italiano

Aqui o filme, integral e legendado.

A inteligência nunca terá importância, nunca
na consciência desta opinião pública. Nem mesmo
sobre sangue dos campos de concentração, obterás

de um dos milhões de almas do nosso país
um juízo limpo, totalmente indignado:
toda a ideia é irreal, irreal toda a paixão,

deste povo já dissociado
dos séculos, cuja suave sageza
lhe serve para viver e nunca o libertou.

Mostrar o meu rosto, a minha magreza,
levantar a minha voz sozinha e pueril
não tem mais sentido: a cobardia habitua-se

a ver morrer os outros do modo mais atroz,
com a mais estranha indiferença.
Eu morro, e também isso me ofende.

Pier Paolo Pasolini, Itália (1922-1975), tradução de Nuno Dempster.

Continuar a ler

Anúncios

Manhã

Abriu as venezianas. Pendurou os lençóis no peitoril.
                              Mirou o dia.
Um pássaro fixou-a nos olhos. “Estou só”, murmurou.
“Estou viva.”Entrou no quarto. O espelho é também uma janela.
Se saltar dele, cairei nos meus próprios braços.

Yannis Ritsos, Grécia (1909-1990), tradução de Nuno Dempster.

Continuar a ler

O género humano

Nem juntos os nossos corações soam mais,
na inquietude total do universo,
do que esse frigorífico que ouvimos latir à noite
numa solidão cordial e insone.

Nem sequer a união
de todos os trabalhos que suportamos
conseguia mudar a forma de uma nuvem.

A soma do amor de todos juntos
não podia salvar
a vida de um insecto agonizante
nem conter a soberba de um tirano.

A nossa história é um cofre
de sangue e cinza.
O mar apaga a esteira dos navios.

O tempo varrerá as nossas pegadas.

Felipe Benítez Reyes, Espanha (n.1960), tradução de Nuno Dempster.

Continuar a ler

A idade de ouro

Aquilo que o tempo leve
que seja tanto
quanto o tempo nos deu,
prenda não merecida,
abandonando a memória na inocência
da vida já cumprida, porque nada
fere mais e mais fundo que a lembrança:
enquanto subsista uma noite na memória,
essa noite é a Noite
e essa intensa memória a Memória.

O tempo leve tudo
o que queira levar,
porque tudo foi seu desde sempre.

Que o tempo desvaneça
o ouro delinquente do amor
e a imagem hermética daquilo
que chamavas passado
                             ― e era apenas
ontem: a fugitiva
idade de não ter
idade para o passado.

Idade de Baudelaire e de miúdas
que adquiriam noções da vida
nas últimas filas dos cinemas
e nesses velhos cinemas do pós-guerra
convertidos
em lugares de dança que fechavam
quando o céu queria amanhecer.
Amanheceres de domingo,
voltando a casa com
um copo ainda na mão
e tabaco esquisito no bolso,
a essa hora em que abriam os cafés
e as damas de caridade montavam mesas
com cartazes de meninos moribundos.

E era a morta luz que amanhecia
a metáfora gelada e a ilusão exacta de estar queimando
os templos da eterna juventude.

Mas no seu carro fúnebre
o tempo ia admitindo passageiros.

E as naves queimadas são cinza
e muito pouco de eterno
teve a juventude.

Assim que arraste tudo, o tempo
que leve no seu vórtice a memória,
                                                       deixando
um vazio perfeito no passado.

Porque toda a recordação
acaba corrompendo-se no presente
e este presente já
de pouco vai servir-nos.

De pouco vai servir-nos
o saber que houve um tempo em que a vida
valia o peso em ouro.

Porque a vida coloca
a casa no passado.

E esta casa sombria não parece a nossa.

Felipe Benítez Reyes, Espanha (n.1960), tradução de Nuno Dempster.

Continuar a ler

O Mar

O facto de arrojar ao mesmo tempo
as cinzas ao mar de todos os cadáveres
que vagam pelas brumas da História;
mesmo toda essa cinza
unânime, afirmo eu, em nada alteraria
o contínuo fluir:

lentas marés,
a alada ondulação agreste
ou as lendas graves da sua ira.

Errabundo e cativo, porém sempre
com uma disciplina
perfeita: enigmática e calculada,

ouve como ele ruge:

o mar narcotizado pelas luas,
homérico, mutável e mecânico,
com mesnadas de peixes
de olhos aterrados que o exploram
como os meditativos peixes coloridos
exploram uma vez e outra vez e uma vez mais
o aquário cheio de palmeiras
e baús de pirata em miniatura.

Flutuante do mesmo modo
que o nosso pensamento,
olha-o,
angustiado de azul indefinível,
asmático, grandioso e teatral,
ele,
que foge e invade
segundo um estranho método que tem
algo a ver quiçá com os nossos ciclos
de razão e loucura, as duas faces
de uma mesma moeda que cai sempre de esquina.

Refúgio de seres silenciosos,
inesgotável mar de vaivém branco,
tão dado a todo o tipo de metáforas
que costumam lembrar-nos certas vezes
o muito que nós somos como o mar.

Felipe Benítez Reyes, Espanha (n.1960), tradução de Nuno Dempster.

Continuar a ler

Mudança para a cidade

Perdi a escravidão dos camponeses,
não mais serei feliz com um copo,
perdi a minha liberdade.
Cidade do longo exílio
de silêncio com súbitos estrondos,
devo contar o meu tempo
gasto nas viagens de eléctrico,
devo desfazer as minhas malas fechadas,
moderar o meu pranto, o meu sorriso.

Adeus, como adeus? Esparsas giestas,
costas amplas dos bosques
que rompem a face azul do céu,
carvalhos e azinheiras irmanados no vento,
ovelhas em torno do pastor que dorme,
terra amarela e rapada,
que é a mulher que deu à luz,
e os meus irmãos e as casas onde moram
e os caminhos por onde vão como andorinhas
e as mulheres, não aguento,
adeus, como posso dizer-lhes adeus?

Perdi a minha liberdade:
na feira de Julho, o ar quente
mal deixava passar as palavras,
dois negociantes compraram-me,
um puxou das liras e o outro foi ver-me.
Perdi a escravidão camponesa
dos céus carregados, dos carvalhos,
da terra amarela e rapada.
A cidade apareceu-me à noite
depois de um dia inteiro
o comboio ter avançado aos soluços,
e não havia a nossa lua
e não havia o quadro negro da noite
e os montes estavam perdidos ao longo da estrada.

Roma, 1950

Rocco Scotellaro, Itália (1923-1953), tradução de Nuno Dempster.

Continuar a ler

Os restos de um naufrágio

                     A Luis Antonio de Villena

Umas centenas de livros, uma casa na praia,
móveis que o coração foi envelhecendo
e que tornaram o mundo hospitaleiro,
fetiches de alguma viagem, talismãs
que nada puderam contra o mundo,
um punhado de cartas de uns quantos amigos,
uma ou outra carta secreta, inconfessável,
papéis ordenados, papéis sem sentido,
medicamentos, quadros, roupa usada
e roupa por usar, várias contas de banco,
uma viúva aturdida, um automóvel,
uma amante aturdida, um pente com cabelos,
uma caligrafia que perdeu a firmeza da sua mão,
um odor familiar a caminho do nada.

Este é o inventário dos bens de um morto,
e como todo o censo e todas as listas
supõe um exercício de modéstia.
As nossas coisas, que às vezes pareciam proteger-nos,
habitar-nos o mundo que habitávamos,
num relance se convertem
num prolixo catálogo de absurdos,
rotas apagadas de um mapa inexistente,
pássaros dissecados cujos olhos
não sabem recordar um céu que já ardeu.

Carlos Marzal, Espanha (n. 1961), tradução de Nuno Dempster.

Continuar a ler