Parábola do Indestrutível

Onde está agora o ramo dourado
que levei para o corpo dela?
Onde está o sabor a água doce
dividido nas nossas bocas? E porque é que
as aves canoras nunca mergulham
na água ou caçam a partir da montanha?
Escuta: o balido do pato selvagem,
o queixume do mergulhão e o crocitar da garça,
os falcões que uivam como lobos e as águias-marinhas
que relincham como cavalos, a tagarelice das gaivotas,
e a pequena coruja a latir na luz do dia:
como ossos na garganta as suas próprias
questões indestrutíveis.

Robert Bringhurst, EUA, 1946,  tradução de Nuno Dempster.

Continuar a ler

Anúncios

Natal de ’44

Desde miúdo alegrava-se-me a face
quando chegava a festa do Natal.
Toda a noite trabalhava a peneira
e de manhã davam-me o fato bonito.

Então escapava-me de casa a correr
e andava na praça a mostrar-me;
e ao meio-dia em ponto na mesa enfeitada
comíamos todos em santa paz.

Oh, o meu Natal, o cheiro dos doces,
hoje passei-o às voltas numa estrada,
sem um pedaço de pão, a roupa emprestada,
longe de casa e sem amor de ninguém.

Tonino Guerra, Itália, 1920 – 2012, traduzido por Nuno Dempster.

Continuar a ler

Os Bois

Vão dizer aos bois para se irem embora,
que aquilo que está feito está feito,
que isso agora se faz antes com o tractor.

A todos chora o coração, a mim também,
vendo que trabalharam milhares de anos
e agora partem de cabeça baixa,
atrás a corda longa do matadouro.

Tonino Guerra, Itália, 1920 – 2012, traduzido por Nuno Dempster.

Continuar a ler

A si dou uma flor

A si dou uma flor,
se me permite,
um gato e um microfone,
uma chave de fendas totalmente sem uso,
uma janela alegre.
Agite tudo.
Faça um poema
ou qualquer outra coisa.
Leia-a ao vizinho.
Deite-a feliz para a sargeta.
E bom-dia,
não volte nunca mais, saúde
quantos ainda recordem
que vamos apodrecendo de impotência.

José Ángel Valente, Espanha (n. 1929), Tradução de Nuno Dempster

Continuar a ler

Poema dito no final do filme Pasolini – Um Delito Italiano

Aqui o filme, integral e legendado.

A inteligência nunca terá importância, nunca
na consciência desta opinião pública. Nem mesmo
sobre sangue dos campos de concentração, obterás

de um dos milhões de almas do nosso país
um juízo limpo, totalmente indignado:
toda a ideia é irreal, irreal toda a paixão,

deste povo já dissociado
dos séculos, cuja suave sageza
lhe serve para viver e nunca o libertou.

Mostrar o meu rosto, a minha magreza,
levantar a minha voz sozinha e pueril
não tem mais sentido: a cobardia habitua-se

a ver morrer os outros do modo mais atroz,
com a mais estranha indiferença.
Eu morro, e também isso me ofende.

Pier Paolo Pasolini, Itália (1922-1975), tradução de Nuno Dempster.

Continuar a ler