Façamos uma limpeza geral

Bautista

Façamos uma limpeza geral,
vamos deitar fora todas as coisas
que não nos servem para nada, essas
coisas que já não usamos, as que
não prestam senão para ganhar pó,
e em que tentamos nem reparar porque
nos trazem as lembranças mais amargas,
coisas que magoam, que ocupam espaço
e nunca quisemos perto de nós.
Façamos uma limpeza geral,
ou melhor ainda, uma mudança,
deixando para trás todas as coisas
sem lhes tocarmos, sem nos sujarmos,
deixemo-las onde sempre estiveram,
vamo-nos nós embora, vida minha,
e recomecemos a acumular.
Ou vamos deitar fogo a tudo isto,
vamos ficar em paz com essa imagem
das brasas do mundo perante os olhos
e com o coração desabitado.

Amalia Bautista, Espanha (n. 1962), tradução de Soledade Santos

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O TEU SEGREDO

EvaristoCarriego

De tudo te esqueces! Ontem deixaste
aqui em cima do piano, que já nunca tocas,
um pouco da tua alma de menina enferma:
um livro secreto, de ternas memórias.

Íntimas memórias. Abri-o, por descuido,
e descobri, sorrindo, a tua pena mais funda,
o doce segredo que não contarei a ninguém:
a ninguém interessa saber que me nomeias.

… Anda, leva o livro, distraída, cheia
de luz e de sonho. Romântica tonta…
Deixares os teus amores por aí, em cima do piano!
De tudo te esqueces, cabeça de noiva!

Evaristo Carriego, Argentina (1883-1992), tradução de Soledade Santos

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O som do machado

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Uma vez uma mulher foi à floresta.
Os pássaros estavam em silêncio. Porquê? perguntou.
Trovoada, disseram-lhe,
a trovoada está a chegar.
Continuou a andar, e as árvores estavam escuras
e agitavam as folhas. Porquê? perguntou.
A grande tempestade, disseram-lhe,
a grande tempestade está a caminho.
Ela chegou ao rio, que corria
sem resposta, atravessou a ponte
e começou a subir
até ao cume, onde os penedos cinzentos
tinham perdido a cor à espera
da catástrofe que os racharia,
e onde ficava a cabana do eremita, do homem sábio
que vivia desde o princípio dos tempos.
Quando chegou à cabana
não havia lá ninguém.
Mas ouviu o machado dele.
E ouviu a floresta expectante.
Não se atreveu a seguir o som
do machado. Estaria
a derrubar a árvore do mundo?
Aquele seria o dia?

Denise Levertov (Inglaterra, 1923-EUA, 1997), tradução de Soledade Santos

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Ikey sobre o povo de Helya

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George Mackay Brown, por Ian MacInnes

Ao Rognvald, que ronda o castelo com o seu cajado,
não lhe quero bem.
Tem um cão de boca troante e afiada,
e uma porta de madeira muito rija.
Uma vez fiquei preso no arame farpado
(estava a homenagear as galinhas dele, acariciando uma asa)
e ele descarregou em cima de mim o cajado
que também deve ter saído de uma floresta bem rija.

Mansie de Quay é um homem obsequioso.
Peçam-lhe água que ele dá-vos rum.
Dispo-lhe o espantalho todos os anos em Abril.
Pedimos-lhe uma pouca de palha para nos deitarmos no estábulo
e ele dá-nos dormida debaixo de um edredão branco e leve como o céu.
Nessa altura, só a irascível da mulher dele nos destrói a paz.

Gray, o pescador, já não é problema,
relatou-me as leis da vagabundagem
numa voz escorregadia como as algas debaixo do cemitério.
Eu equipei-lhe o barco com sete maldições.
Ocasionalmente, para dar ânimo,
ainda ponho a faca nas redes dele.

Embora tenha campos de turfa negra e uma colina amarela
e cinquenta cabeças de gado mimoso,
não me aproximo da Merran nem dos seus gatos,
prefiro partir uma côdea de pão em cima de uma lápide.
A tataravó dela foi queimada como bruxa em Gallowsha.

Os mil coelhos de Hollandshay
não deixam crescer o trigo de Simpson,
o que motiva muita crueldade, fumo e disparos.
Esta noite acendi um pequeno lume.
Manchei a minha faca de vermelho.
Descasquei um nabo redondo
e rezei ao Senhor
para que conserve os outros novecentos e noventa e nove inocentes.

Finalmente em Folsfcroft vive Jeems,
alfaiate e cangalheiro, viajante de limites,
uma mesma faixa para os vivos e para os mortos.
No Inverno aplica uma agulha aos meus andrajos
e, durante os meus torpores, guarda
as sete tábuas brancas
que recuperei de um naufrágio dinamarquês, certo inverno.

George Mackay Brown (1921 –1996) Escócia, tradução de Soledade Santos Continuar a ler

A si dou uma flor

A si dou uma flor,
se me permite,
um gato e um microfone,
uma chave de fendas totalmente sem uso,
uma janela alegre.
Agite tudo.
Faça um poema
ou qualquer outra coisa.
Leia-a ao vizinho.
Deite-a feliz para a sargeta.
E bom-dia,
não volte nunca mais, saúde
quantos ainda recordem
que vamos apodrecendo de impotência.

José Ángel Valente, Espanha (n. 1929), Tradução de Nuno Dempster

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Sinais

dinicio-morais-1943

Eras a luz toda reunida
num vaso de obsidiana.
Corpo a corpo: espelho perfeito.

Pousei a mão
sobre a tua nudez
e fez-se noite.

Deus, por instantes,
ficou cego
e fomos um, dois, três,
ai, fomos tantos.

De manhã,
achámo-nos órfãos do mundo.

E todos os dias,
como a vida,
começamos do zero.

Dionicio Morales, Mexico (n. 1943), tradução de Soledade Santos

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Sou criança e livre

amina-said

sou criança e livre
de morar nos domingos eternos
sol pousado no horizonte
na claridade de todas as coisas
a terra contempla as estações
não tenho lugar nem morada
a vida está em toda parte e em lugar nenhum

na cisterna do pátio a avó tira
água para o manjericão e a hortelã
esmaga o sal e as especiarias
trava o seu combate diário com a realidade
a brisa enfuna as riscas da cortina
o candeeiro ainda está aceso
do outro lado brinco com as sombras

nos jardins do meu pai
as árvores dão frutos antigos
sussurram na linguagem dos pássaros
a água do poço canta nos sulcos
sob os meus passos nascem caminhos de areia
vivo na inocência do dia
puro começo sem antes nem depois

saio de uma casinha construída como um barco
e deixo-me levar pela emoção azul
um bailado de cavalos marinhos aflora
as estrelas caídas dos céus
nos rochedos florescem ouriços
algas cintilam nos meus pulsos
só o instante vive naquilo que contemplo

sou criança e livre
não tenho lugar nem morada
vasto é o horizonte quando o mundo
inteiro é um poema
dia pleno na terra
a noite ainda não tinha sido criada
e eu ergo-me sobre todos os tempos

Amina Saïd, Tunísia (n. 1953), tradução de Soledade Santos

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