BRINDE

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Alegra-te comigo, celebremos a sorte
de partilhar a mesma cidade, o mesmo século,
a bênção do sol dourado de Inverno,
a cerveja e sua espuma nos lábios.
Brindemos contra o tempo de obscuras ameaças,
toquemo-nos, ousados, riamos, satisfeitos,
esconjuremos os monstros da dor e da culpa,
calemos a nossa imensa solidão.

Que o dom da embriaguez nos banhe ao meio-dia.

Amalia Bautista (n. 1962), tradução de Soledade Santos

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Não me parece nem bem nem mal

Acredito que às vezes nos observam
pela frente por trás pelos lados
uns olhos rancorosos de galinha
mais terríveis que a água podre das grutas
incestuosos como os olhos da mãe
que morreu no patíbulo
pegajosos como um coito
como a gelatina que os abutres devoram
acredito que hei-de morrer
com as mãos afundadas no lodo dos caminhos
acredito que se me nascesse um filho
ele ficaria a olhar eternamente
as bestas que copulam ao entardecer.

Luís Buñuel, Espanha, 1900-1983, traduzido por Nuno Dempster.

 

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Garças

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As garças procuram dias claros
para voar nos binóculos
que as observam. Sobrevoam
a baixa altura o bosque
e planam ao longo das margens,​
perto dos juncos, passe-partout entre moldura
e desenho.

Submergem até meio
das pernas e o bico inteiro
nas águas, avançam
devagar, traçam círculos
perfeitos à superfície
e provocam um leve chapinhar
que só os silêncios do rio
escutam quando o leito
confunde o que flui

com o que permanece.
E em tamanha quietude
imprimem no ar ameno
o ronco destemperado
do seu grasnido. Nada se compreende
então. Assim actua
a realidade.

José Ángel Cilleruelo, Barcelona (n. 1960), tradução de Soledade Santos (primeiro publicada no Poesia, vim buscar-te

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Parábola do Indestrutível

Onde está agora o ramo dourado
que levei para o corpo dela?
Onde está o sabor a água doce
dividido nas nossas bocas? E porque é que
as aves canoras nunca mergulham
na água ou caçam a partir da montanha?
Escuta: o balido do pato selvagem,
o queixume do mergulhão e o crocitar da garça,
os falcões que uivam como lobos e as águias-marinhas
que relincham como cavalos, a tagarelice das gaivotas,
e a pequena coruja a latir na luz do dia:
como ossos na garganta as suas próprias
questões indestrutíveis.

Robert Bringhurst, EUA, 1946,  tradução de Nuno Dempster.

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Natal de ’44

Desde miúdo alegrava-se-me a face
quando chegava a festa do Natal.
Toda a noite trabalhava a peneira
e de manhã davam-me o fato bonito.

Então escapava-me de casa a correr
e andava na praça a mostrar-me;
e ao meio-dia em ponto na mesa enfeitada
comíamos todos em santa paz.

Oh, o meu Natal, o cheiro dos doces,
hoje passei-o às voltas numa estrada,
sem um pedaço de pão, a roupa emprestada,
longe de casa e sem amor de ninguém.

Tonino Guerra, Itália, 1920 – 2012, traduzido por Nuno Dempster.

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Os Bois

Vão dizer aos bois para se irem embora,
que aquilo que está feito está feito,
que isso agora se faz com o tractor.

A todos chora o coração, a mim também,
vendo que trabalharam milhares de anos
e agora partem de cabeça baixa,
atrás da longa corda do matadouro.

Tonino Guerra, Itália, 1920 – 2012, traduzido por Nuno Dempster.

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