Síndrome

 

Todavia tenho quase todos os dentes
quase todos os cabelos e pouquíssima brancas
posso fazer e desfazer o amor
subir degraus de dois em dois
e correr quarenta metros atrás do autocarro
ou seja não deveria sentir-me velho
mas o grave problema é que antes
não pensava em tais detalhes.

Mario Benedetti, Uruguai, 1920-2009, traduzido por Nuno Dempster.

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BRINDE

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Alegra-te comigo, celebremos a sorte
de partilhar a mesma cidade, o mesmo século,
a bênção do sol dourado de Inverno,
a cerveja e sua espuma nos lábios.
Brindemos contra o tempo de obscuras ameaças,
toquemo-nos, ousados, riamos, satisfeitos,
esconjuremos os monstros da dor e da culpa,
calemos a nossa imensa solidão.

Que o dom da embriaguez nos banhe ao meio-dia.

Amalia Bautista (n. 1962), tradução de Soledade Santos

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Não me parece nem bem nem mal

Acredito que às vezes nos contemplam
pela frente por trás pelos lados
uns olhos rancorosos de galinha
mais terríveis que a água podre das grutas
incestuosos como os olhos da mãe
que morreu no patíbulo
pegajosos como um coito
como a gelatina que os abutres devoram
acredito que hei-de morrer
com as mãos afundadas no lodo dos caminhos
acredito que se me nascesse um filho
ele quedar-se-ia a olhar eternamente
as bestas que copulam ao entardecer.

Luís Buñuel, Espanha, 1900-1983, traduzido por Nuno Dempster.

 

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Garças

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As garças procuram dias claros
para voar nos binóculos
que as observam. Sobrevoam
a baixa altura o bosque
e planam ao longo das margens,​
perto dos juncos, passe-partout entre moldura
e desenho.

Submergem até meio
das pernas e o bico inteiro
nas águas, avançam
devagar, traçam círculos
perfeitos à superfície
e provocam um leve chapinhar
que só os silêncios do rio
escutam quando o leito
confunde o que flui

com o que permanece.
E em tamanha quietude
imprimem no ar ameno
o ronco destemperado
do seu grasnido. Nada se compreende
então. Assim actua
a realidade.

José Ángel Cilleruelo, Barcelona (n. 1960), tradução de Soledade Santos (primeiro publicada no Poesia, vim buscar-te

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Parábola do Indestrutível

Onde está agora o ramo dourado
que levei para o corpo dela?
Onde está o sabor a água doce
dividido nas nossas bocas? E porque é que
as aves canoras nunca mergulham
na água ou caçam a partir da montanha?
Escuta: o balido do pato selvagem,
o queixume do mergulhão e o crocitar da garça,
os falcões que uivam como lobos e as águias-marinhas
que relincham como cavalos, a tagarelice das gaivotas,
e a pequena coruja a latir na luz do dia:
como ossos na garganta as suas próprias
questões indestrutíveis.

Robert Bringhurst, EUA, 1946,  tradução de Nuno Dempster.

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Natal de ’44

Desde miúdo alegrava-se-me a face
quando chegava a festa do Natal.
Toda a noite trabalhava a peneira
e de manhã davam-me o fato bonito.

Então escapava-me de casa a correr
e andava na praça a mostrar-me;
e ao meio-dia em ponto na mesa enfeitada
comíamos todos em santa paz.

Oh, o meu Natal, o cheiro dos doces,
hoje passei-o às voltas numa estrada,
sem um pedaço de pão, a roupa emprestada,
longe de casa e sem amor de ninguém.

Tonino Guerra, Itália, 1920 – 2012, traduzido por Nuno Dempster.

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Os Bois

Vão dizer aos bois para se irem embora,
que aquilo que está feito está feito,
que isso agora se faz com o tractor.

A todos chora o coração, a mim também,
vendo que trabalharam milhares de anos
e agora partem de cabeça baixa,
atrás da longa corda do matadouro.

Tonino Guerra, Itália, 1920 – 2012, traduzido por Nuno Dempster.

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SER VELHO

800px-Joan_Margarit_i_ConsarnauEntre as sombras dos galos
e dos cães nos pátios e currais
de Sanaüja, abre-se um buraco
que se enche de tempo perdido e água suja
quando as crianças caminham para a morte.
Ser velho é uma espécie de pós-guerra.
Sentados à mesa da cozinha,
a escolher lentilhas
em noites de borralho,
vejo os que me amaram.
Tão pobres que no fim da guerra
tiveram de vender o miserável
vinhedo e aquele frio casarão.
Ser velho é a guerra ter terminado.
É saber onde ficam os refúgios, agora inúteis.

Joan Margarit, Catalunha (n. 1938) tradução de Soledade Santos

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Sem chaves e às escuras

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Era um daqueles dias em que tudo corre bem.
Tinha limpado a casa e escrito
dois ou três poemas que me agradavam.
Não pedia mais nada.
Vim então à rua, despejar o lixo.
Atrás de mim, uma corrente de ar,
e a porta fechou-se.
Fiquei sem chaves e às escuras,
sentindo as vozes dos vizinhos
para lá das suas portas.
É transitório, disse para comigo;
mas também a morte poderia ser assim:
uma rua escura,
uma porta fechada, a chave lá dentro,
o lixo na mão.

Fabián Casas, Argentina (n. 1965), tradução de Soledade Santos

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Férias em família

Quatro semanas de brigas, longe
de casa, chegámos ao mais solitário dos lugares.
Uma cidade ferroviária no oeste. Lembras-te?
Deixei-te no parque de campismo, com as panelas engorduradas,
e disse aos nossos filhos que não me seguissem.
A luz moribunda deixava-me desesperada.
Lancei-me numa corrida trôpega ao longo dos carris,
passando por armazéns com o sol apagado nas janelas,
até chegar ao parque infantil, que cintilava numa clareira.
E aí pus-me a balouçar, elevando-me acima da copa das árvores.
E vi-me a nunca mais regressar, embora
o alento que respirava no bosque silencioso
não fosse outra vida. O sol afundou-se.
Deixei o baloiço imobilizar-se, os meus pés rasparam a terra.
E eu fui sacudida pela lembrança
da menina que sonhara a vida que eu tinha.
Através da raiz escura da noite, voltei a ela.

Judith Slater, USA (n. 1938), tradução de Soledade Santos

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