Poema dito no final do filme Pasolini – Um Delito Italiano

Aqui o filme, integral e legendado.

A inteligência nunca terá importância, nunca
na consciência desta opinião pública. Nem mesmo
sobre sangue dos campos de concentração, obterás

de um dos milhões de almas do nosso país
um juízo limpo, totalmente indignado:
toda a ideia é irreal, irreal toda a paixão,

deste povo já dissociado
dos séculos, cuja suave sageza
lhe serve para viver e nunca o libertou.

Mostrar o meu rosto, a minha magreza,
levantar a minha voz sozinha e pueril
não tem mais sentido: a cobardia habitua-se

a ver morrer os outros do modo mais atroz,
com a mais estranha indiferença.
Eu morro, e também isso me ofende.

Pier Paolo Pasolini, Itália (1922-1975), tradução de Nuno Dempster.

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Mudança para a cidade

Perdi a escravidão dos camponeses,
não mais serei feliz com um copo,
perdi a minha liberdade.
Cidade do longo exílio
de silêncio com súbitos estrondos,
devo contar o meu tempo
gasto nas viagens de eléctrico,
devo desfazer as minhas malas fechadas,
moderar o meu pranto, o meu sorriso.

Adeus, como adeus? Esparsas giestas,
costas amplas dos bosques
que rompem a face azul do céu,
carvalhos e azinheiras irmanados no vento,
ovelhas em torno do pastor que dorme,
terra amarela e rapada,
que é a mulher que deu à luz,
e os meus irmãos e as casas onde moram
e os caminhos por onde vão como andorinhas
e as mulheres, não aguento,
adeus, como posso dizer-lhes adeus?

Perdi a minha liberdade:
na feira de Julho, o ar quente
mal deixava passar as palavras,
dois negociantes compraram-me,
um puxou das liras e o outro foi ver-me.
Perdi a escravidão camponesa
dos céus carregados, dos carvalhos,
da terra amarela e rapada.
A cidade apareceu-me à noite
depois de um dia inteiro
o comboio ter avançado aos soluços,
e não havia a nossa lua
e não havia o quadro negro da noite
e os montes estavam perdidos ao longo da estrada.

Roma, 1950

Rocco Scotellaro, Itália (1923-1953), tradução de Nuno Dempster.

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Fim de 68

Contemplei da lua, ou quase,
o modesto planeta que contém
filosofia, teologia, política,
pornografia, literatura, ciências
evidentes ou ocultas. Nele há também o homem,
e eu no meio destes. E é tudo muito estranho.
Em poucas horas será noite e o ano
vai acabar entre explosões de espumante
e de fogo de artifício. Talvez de bombas ou pior,
mas não aqui onde estou. Se um tipo morre
ninguém se importa, desde que seja
desconhecido e de longe.

Eugenio Montale, Itália (1896 – 1981), tradução de Nuno Dempster.

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Bernardo aos cinco anos

A dor está nos teus olhos tímidos
Na mão infantil que saúda sem graça,
A dor dos dias que hão-de vir
Já pesa sobre os teus ossos frágeis.
Num dia de outono que doba
Quieto as suas linhas de névoa ao sol
O jogo acabou inesperadamente,
Deixou-te sozinho onde a estrada acaba,
Tão esplêndida de folhas caídas
Durante a noite, que a todos aqui
Veio ao pensamento
A estação que se avizinha célere.
Tu saudaste com um aceno débil
E um sorriso pálido, permaneceste
Sombra na sombra um instante, agora corres
A refugiar-te na nossa ânsia.

Attilio Bertolucci, (1911-2001), Itália, tradução de Soledade Santos

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O poeta Attilio Bertolucci © 1992 Leonardo Cendamo

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VERÃO

Reapareceu a mulher dos olhos semi-cerrados
e do corpo íntimo, caminhando pela rua.
Olhou de frente estendendo a mão,
na rua parada. Tudo voltou à tona.

Na quieta luz de um dia longínquo
desfez-se a recordação. A mulher levantou
a fronte simples, e o olhar daquele tempo
reavivou-se. A mão ficou tensa na mão
e o aperto ansioso era o mesmo de outrora.
Tudo retomou as cores e a vida
com o olhar recolhido, a boca entreaberta.

E voltou a angústia dos dias longínquos
quando todo um imóvel verão inesperado
de cores e tepidez aflorou nos relances
daquele olhar humilde. E voltou a angústia
que nenhuma doçura dos lábios abertos
pode amaciar. Um céu imóvel habita
friamente aqueles olhos.
No meio da calma a lembrança,
sob a luz submissa do tempo, era uma dócil
agonizante a quem a janela se enevoa e desaparece.
Desfez-se a recordação. O ansioso apertar
da mão suave reacendeu as cores
e o verão e o calor sob o céu luminoso.
Mas a boca entreaberta e os olhos submissos
só dão vida a um duro inumano silêncio.

Cesare Pavese, Itália (1908-1950), tradução de Nuno Dempster.

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