Parábola do Indestrutível

Onde está agora o ramo dourado
que levei para o corpo dela?
Onde está o sabor a água doce
dividido nas nossas bocas? E porque é que
as aves canoras nunca mergulham
na água ou caçam a partir da montanha?
Escuta: o balido do pato selvagem,
o queixume do mergulhão e o crocitar da garça,
os falcões que uivam como lobos e as águias-marinhas
que relincham como cavalos, a tagarelice das gaivotas,
e a pequena coruja a latir na luz do dia:
como ossos na garganta as suas próprias
questões indestrutíveis.

Robert Bringhurst, EUA, 1946,  tradução de Nuno Dempster.

Parable of the Indestructible

Where is it now, the golden bough (*)
I carried through her body?
Where is the taste of sweet water
torn from our mouths? And why is it
the birds who can sing never enter
the water or hunt from the mountain?
Listen: the bleat of the widgeon,
the moan of the loon and the croak of the heron,
the hawks howling like wolves and the sea eagles
neighing like horses, the gibber of gulls,
and the small owl barking in daylight:
like bones in their throats their own
indestructible questions.

Robert Bringhurst

(*) – Golden bough: possível alusão ao livro The Golden Bough, do antropologista James Frazer que teve grande influência no seu tempo e que forneceu a T.S. Eliot imagens notáveis para The Waste Land. Traduzi este poema por não me satisfazer a versão que se encontra em A Beleza das Armas, colectânea de poemas de Robert Bringhurst, editada por Antígona em 1994.

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